A Polícia Federal detalhou o funcionamento de uma suposta milícia digital abastecida com mais de R$ 25 milhões provenientes de contratos da Prefeitura de Macapá. De acordo com a investigação, o grupo atuava para promover politicamente o ex-prefeito Dr. Furlan (PSD), atacar adversários e disseminar desinformação nas redes sociais.
A estrutura foi alvo da Operação Palanque Digital, deflagrada nesta terça-feira (26/5), com 35 mandados de busca e apreensão cumpridos em Macapá, Belém e Canela (RS). Entre os alvos estão o próprio Dr. Furlan, influenciadores, jornalistas, ex-secretários municipais — como Juarez Menescal, preso em flagrante portando arma de fogo —, empresários do setor de comunicação e donos de agências de publicidade.
Segundo a PF, o grupo operava de forma organizada, com divisão de tarefas, fluxo financeiro definido e setores específicos voltados à produção de conteúdo político e ataques digitais. No topo da hierarquia estaria um “núcleo estratégico”, responsável por definir narrativas, selecionar adversários, decidir campanhas de promoção política e orientar os ataques virtuais.
A investigação aponta que a liderança política determinava o direcionamento dos contratos de publicidade e acompanhava os resultados das campanhas nas redes. Abaixo desse núcleo, aparecem contratos da Secretaria Municipal de Comunicação de Macapá, agências de publicidade e empresas de comunicação que, suspeita-se, serviam como canais para distribuir recursos públicos ao esquema.
Os investigadores afirmam que o dinheiro destinado à comunicação institucional da Prefeitura era desviado de sua finalidade oficial e usado para financiar influenciadores digitais, páginas em redes sociais, blogs, rádios, portais de notícias e perfis considerados artificiais ou falsos. A estrutura produzia conteúdos coordenados para impulsionar a imagem de aliados políticos e atacar opositores.
Conforme a PF, havia reuniões presenciais e online para alinhar quais conteúdos seriam publicados, contra quem os ataques seriam direcionados e como seria a estratégia de disseminação. A investigação também identificou o uso de inteligência artificial e deepfakes para criar vídeos, imagens e áudios manipulados. Conteúdos falsos e ataques com teor homofóbico foram disseminados pela rede.
O esquema utilizava impulsionamento pago e publicações simultâneas em diferentes páginas para ampliar artificialmente o alcance das mensagens. A rede, segundo a PF, atuava há pelo menos quatro anos.
O ex-prefeito Dr. Furlan já havia sido alvo de outras operações da PF. Em setembro de 2025, a Operação Paroxismo apurou suspeitas de fraude em licitação e desvios ligados à construção do Hospital Geral Municipal de Macapá, com contrato estimado em R$ 69,3 milhões. Em março deste ano, a segunda fase da mesma operação levou ao afastamento de servidores por decisão do STF. No dia seguinte, Dr. Furlan renunciou ao cargo de prefeito e anunciou pré-candidatura ao governo do Amapá.
Agora, a PF investiga se parte da máquina pública municipal foi usada para financiar uma estrutura digital clandestina voltada à autopromoção política e manipulação do debate público nas redes sociais. Até o momento, a operação resultou na apreensão de R$ 65 mil em espécie, quatro armas de fogo e diversos veículos. Duas pessoas foram presas.
Os investigados podem responder por crimes eleitorais, lavagem de dinheiro, organização criminosa, abuso de poder econômico, desinformação eleitoral e crimes contra a administração pública.
Fonte: Metrópoles







