Desde o início da guerra no Irã, Benjamin Netanyahu usou toda a sua influência para convencer Donald Trump a lançar o conflito ao lado de Israel. Nenhum outro líder teve tanto peso sobre o presidente americano quanto o primeiro-ministro israelense. No entanto, nas atuais rodadas de negociação entre os Estados Unidos e o regime iraniano para encerrar as hostilidades, a influência de Netanyahu é praticamente inexistente.
Ainda não se sabe se um acordo será de fato fechado, apesar do otimismo recente. Como exemplo da volatilidade do cenário, os EUA realizaram um ataque limitado contra alvos no Irã na véspera, justificado como autodefesa. Embora improvável, uma escalada não pode ser descartada. Netanyahu argumentava que seria fácil derrubar o regime iraniano ou ao menos forçar uma rendição nos moldes da Venezuela. Trump, encorajado pelo que via como sucesso na destituição de Nicolás Maduro, acabou ignorando as recomendações mais cautelosas dos serviços de inteligência e decidiu iniciar a guerra.
Três meses depois, diante do fracasso da ofensiva, Trump busca corrigir a rota e parece inclinado a aceitar um acordo com Teerã que não incorpora a maior parte das exigências de Israel. O foco imediato será apenas na reabertura do Estreito de Ormuz pelo Irã — bloqueado após os ataques americanos e israelenses — em troca do fim do embargo dos EUA aos portos iranianos.
A questão nuclear será tratada em uma segunda fase, mas o poder de barganha do Irã é hoje muito maior do que antes do conflito. Antes da guerra, a principal ferramenta de pressão dos EUA era a ameaça de um ataque militar caso o Irã não cooperasse. Como o ataque ocorreu e o regime sobreviveu, essa ameaça perdeu efeito. Além disso, os iranianos mantêm a capacidade de fechar o Estreito de Ormuz quando quiserem.
Trump aparentemente conseguirá um acordo em que o Irã aceita uma moratória no enriquecimento de urânio em troca do fim das sanções. É possível que seja flexível quanto ao destino dos 400 quilos de urânio enriquecido a 60%, próximo dos 90% necessários para uma bomba. Dificilmente o Irã aceitará restrições a seu programa de mísseis balísticos.
Esse acordo fica muito aquém do que Netanyahu sempre desejou. O regime iraniano manterá e ampliará seu programa de mísseis, enriquecerá urânio com o fim das sanções e talvez preserve um programa clandestino para desenvolver armas nucleares. Para o premier israelense, que imaginava um novo regime aliado a Israel, isso é um pesadelo.
Há ainda a questão do apoio ao Hezbollah. O regime iraniano não deve ceder nesse ponto. Trump pode simplesmente manter a farsa do cessar-fogo negociado entre Líbano e Israel, enquanto o grupo permanece armado e fortalecido pelo Irã na fronteira com Israel ou na área ocupada no sul do Líbano. Isso pode não preocupar Trump, mas certamente preocupa Netanyahu.
Netanyahu não pode ser subestimado. Ele fará de tudo para sabotar o acordo. Dificilmente confrontará Trump abertamente, especialmente no caso do Irã, mas certamente encontrará uma forma de continuar sua guerra contra o Hezbollah no sul do Líbano, fingindo respeitar o cessar-fogo, como já vem fazendo. Tanto Israel quanto o grupo aliado ao Irã têm violado a trégua.
Fonte: O GLOBO







