O Terceiro Comando Puro (TCP) é a segunda maior facção criminosa do estado do Rio de Janeiro. Originado em território fluminense, o grupo tem expandido sua atuação para outras unidades da federação, seguindo o modelo do Comando Vermelho. Diferentemente do CV, no entanto, o TCP ainda não possui uma liderança unificada que concentre as decisões, o que pulveriza as operações dos traficantes, com cada comunidade atuando de forma independente.
Nesse contexto, Álvaro Malaquias Santa Rosa, conhecido como Peixão, é o membro mais destacado da facção — e um dos poucos integrantes do TCP no estado que figuram na lista de procurados do Ministério da Justiça. Peixão é apontado como líder do Complexo de Israel, um conjunto de cinco favelas na Zona Norte do Rio. A região, guarnecida por um verdadeiro exército equipado com fuzis e drones, tornou-se o principal reduto do traficante, conhecido por seu perfil violento e práticas de intolerância religiosa.
De acordo com relatos de moradores, Peixão costuma desaparecer com os corpos de quem desrespeita suas regras, jogando-os aos jacarés de um manguezal atrás da favela de Parada de Lucas, uma das áreas sob seu controle. As denúncias à polícia incluem destruição de terreiros e proibição do uso de roupas brancas nas comunidades dominadas pelo traficante, que se declara evangélico. Durante anos, a facção exibiu uma estrela de Davi no alto de uma caixa-d’água visível da Avenida Brasil; o símbolo foi removido em uma operação policial em 2023.
O nome de Peixão passou a ser mencionado no debate sobre classificar organizações criminosas como terroristas. Autoridades de segurança do Rio afirmaram que ele poderia ser o primeiro traficante investigado por terrorismo, após ser apontado como mandante de um ataque a tiros que matou três pessoas na Avenida Brasil, em outubro de 2024. O incidente, que paralisou a principal via expressa da cidade durante um confronto entre criminosos e policiais, gerou imagens de pânico que correram o mundo.
Desde então, sucessivas operações foram realizadas para capturá-lo. Em algumas incursões, a polícia encontrou estruturas luxuosas usadas para o lazer do criminoso — uma delas, apelidada de “resort do Peixão”, contava com lago artificial com carpas, areia de praia e minicampo de futebol. Uma investigação da Polícia Federal em 2024 revelou que Peixão mantinha um esquema de importação de armas e tecnologia para uso contra rivais e policiais.
Em mensagens trocadas com Everson Vieira Francesquet, apontado como armeiro da facção, o traficante fala sobre explodir adversários e adquirir equipamentos de ponta para monitorar a favela. Em uma conversa, ele afirma precisar “com urgência” de um drone capaz de lançar bombas. Em outra, diz enxergar o Complexo de Israel como um país que “tem que ter tudo”. A PF também identificou uma rede de negociações que, segundo o Ministério Público Federal, revelaria a função de Francesquet no TCP: comprar equipamentos bélicos, táticos e tecnológicos no exterior para abastecer a facção.
Nos diálogos atribuídos a Peixão, ele solicita drones com capacidade de lançar bombas, localizadores de drones, fuzis, pistolas, rádios de longo alcance e chips estrangeiros — paraguaios ou americanos — para dificultar a interceptação das comunicações. Em uma mensagem, escreve: “Vamo comprar o Drone e o localizador de Drone, e a tua bazuca (Fuzil AntiDrone) quando chegar também”. Em outra, comemora ter acertado duas pessoas com bombas lançadas por drones.
As conversas também revelam o planejamento de uma estrutura de fachada no Paraguai — onde a venda de bloqueadores de sinal é legalizada — para enviar os equipamentos por via terrestre, driblando a fiscalização aduaneira brasileira. Embora a 7ª Vara Federal Criminal do Rio de Janeiro, em decisão no dia 6 de fevereiro, tenha condenado Francesquet a seis anos e cinco meses de prisão e absolvido Peixão por falta de provas, o chefe do Complexo de Israel ainda possui dez mandados de prisão em aberto. Ele acumula 79 anotações criminais.
Em 8 de dezembro de 2024, a família do traficante foi detida pela Polícia Rodoviária Federal e pela Polícia Federal na BR-262, em Campo Grande (MS). Há indícios de que Peixão estava em outro veículo e conseguiu escapar do cerco. Ele segue foragido — em quase duas décadas de atuação no tráfico, jamais foi preso.
Fonte: O GLOBO







