INDÚSTRIAPhilip Morris cita Itália como modelo para investimentos no Brasil

Em 2016, a Philip Morris International adquiriu um terreno próximo a Bolonha, na Itália, onde construiu a maior unidade fabril erguida no país em 25 anos. O projeto consumiu 1 bilhão de euros, o maior aporte de uma empresa estrangeira na Itália em duas décadas. Uma década depois, o complexo, que equivale a 33 campos de futebol, gerou 41 mil postos de trabalho entre diretos e indiretos e representa 0,5 ponto percentual do Produto Interno Bruto (PIB) italiano.

O volume de produtos sem fumaça exportados desse local supera, em participação na balança comercial do país, o de queijos, motocicletas e azeite de oliva. Além disso, um quarto de todas as exportações italianas para o Japão sai daquela fábrica, segundo dados da companhia.

Marco Hannappel, presidente da Philip Morris para América Latina e Canadá, conhece bem esses números por ter liderado a operação italiana antes de assumir a região. “A Itália é um exemplo do que poderíamos fazer no Brasil”, afirmou o executivo durante o Summit Valor Brazil-USA, em Nova York.

Hannappel destacou a força do Brasil nos setores agrícola e de infraestrutura industrial, características que facilitariam a replicação do modelo de negócio do Vale da Mecatrônica de Bolonha. Lá, a empresa buscou parceiros não apenas para os produtos finais, mas também para a fabricação de maquinário especializado. “São centenas de milhões de dólares em investimentos que podem ser planejados no longo prazo, como fizemos na Itália”, disse Hannappel. “A cadeia de valor está toda lá.”

O principal entrave, segundo o executivo, é a regulação. Os produtos sem fumaça, como tabaco aquecido e vaporizadores, tiveram sua comercialização reavaliada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) em 2024, e a proibição foi mantida por decisão unânime da diretoria. Enquanto isso, outros países avançam como parceiros potenciais. Os Estados Unidos já receberam US$ 20 bilhões em investimentos da Philip Morris, com fábricas de sachês de nicotina em Owensboro (Kentucky) e Aurora (Colorado). A Argentina, com abertura regulatória prevista a partir de 2026, surge como candidata a hub regional.

A empresa defende a convergência regulatória como solução. Durante a pandemia de Covid-19, consolidou-se a prática de adotar avaliações da Food and Drug Administration (FDA) dos Estados Unidos, em vez de cada país realizar processos independentes de testes e aprovação. Outro exemplo é o programa Medical Device Single Audit Program (MDSAP), do qual a Anvisa participa desde 2014, ao lado das agências dos EUA, Canadá, Austrália e Japão. Nele, uma única auditoria terceirizada substitui inspeções em cada país. Em 2019, quase metade dos certificados de boas práticas de fabricação da Anvisa seguia esse modelo, contra menos de 5% dois anos antes.

É esse tipo de cooperação que a Philip Morris defende para seus produtos de tabaco aquecido. Nos EUA, a empresa submeteu à FDA um dossiê de 3 milhões de páginas para obter autorização como produto de risco reduzido, processo que levou anos e terminou favorável. Hannappel acredita que o Brasil poderia aproveitar esse trabalho sem recomeçar do zero. Ele citou o caso do Japão, onde a incidência de fumantes caiu após a introdução dos produtos sem fumaça. Como exemplo mais próximo, lembrou que a Argentina, que também proibia esses itens, já iniciou sua abertura regulatória.

Fonte: O GLOBO

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