SEGURANÇAPolicial civil autora de livro relata abuso sexual na infância e prisão do agressor

A policial civil Jessica Martinelli transformou sua dor em justiça ao escrever o livro “A Calha”, que narra sua trajetória de superação de um trauma de infância e a consequente prisão do agressor. A obra aborda a reconstrução, a coragem e a busca por justiça. Jessica tornou-se palestrante, discutindo violência contra a mulher, tema central do evento realizado nesta quarta-feira (1º) no Plenarinho Deputado Paulo Stuart Wright, em Florianópolis.

A deputada Luciane Carminatti (PT) convidou a policial para compartilhar sua história e lançar o livro no Parlamento estadual. A parlamentar elogiou a iniciativa de Jessica por levar relatos de violência e superação para escolas, com o objetivo de educar as novas gerações e engajar a sociedade no combate à violência contra mulheres e crianças. Essa atividade já ocorre em Chapecó, cidade onde Jessica reside, abordando violência sexual infantil, violência doméstica e o papel social no enfrentamento desses problemas.

O abuso começou quando Jessica tinha 9 anos, em um local chamado “calha”, frequentado pela família e que posteriormente foi inundado por uma barragem no Rio Uruguai. O agressor, identificado como Fred (nome fictício), era amigo de seu pai. Inicialmente, ela não compreendia o que ocorria, mas as situações se repetiram até chegar à conjunção carnal aos 12 anos. O medo de contar aos pais e a instabilidade emocional da mãe, que sofria de transtorno bipolar, impediram que ela revelasse o abuso em casa.

Aos 16 anos, Jessica contou a história a amigas, e a mãe de uma delas a incentivou a denunciar. Em casa, revelou o ocorrido à irmã mais velha, que chamou o pai. Na delegacia, o plantonista duvidou de seu relato, alegando ser “compadre” do agressor. No dia seguinte, uma escrivã a acolheu e ouviu sua história. Porém, durante a perícia médica, Jessica ouviu: “Abre mais as pernas, que eu não estou enxergando bem”.

O inquérito ficou quatro anos esquecido na delegacia e mais dois no Ministério Público até que o promotor apresentasse a denúncia. Jessica descobriu que Fred, fotógrafo, tinha outro boletim de ocorrência por molestar uma menina em seu estúdio. Os dois casos resultaram em condenação por atentado violento ao pudor e estupro de vulnerável, com pena de 7 anos e 6 meses de prisão em 2013. Contudo, Fred ficou apenas um mês preso na delegacia, pois não havia vaga no presídio.

Após se formar na Academia de Polícia e ser nomeada para uma delegacia em Chapecó, Jessica reencontrou a mãe da outra vítima, que a instigou a cumprir o mandado de prisão. Com o apoio de colegas, ela revisou o processo e localizou o condenado em um sítio. No momento da prisão, ao encarar Fred, o medo da infância retornou. No caminho de volta, os colegas a incentivaram a conduzi-lo até a cela. “Ao sair da viatura, ele quis me encarar e eu mandei abaixar a cabeça. Disse: você não tem o direito de me olhar nos olhos. Aquela criança cresceu, é policial e tem uma pistola .40 na cintura. Eu mesmo bati as grades da cela”, relatou.

Jessica completa 10 anos como policial civil, formou-se em Direito e fez mestrado. O trauma a levou a buscar terapia por anos. Sua história ganhou destaque por unir experiência pessoal e atuação profissional, tornando-a uma voz ativa na conscientização sobre violência sexual infantil e doméstica. Em palestras, ela desafia o público com a pergunta: quem já conversou francamente com os filhos sobre sexualidade? Para ela, o diálogo aberto elimina barreiras e fortalece os laços familiares.

Fonte: Assembleia SC

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