EDUCAÇÃOSeminário em Joinville discute identificação e atendimento de alunos superdotados

Apesar de Santa Catarina contar com aproximadamente 1,77 milhão de alunos matriculados, apenas pouco mais de 3,5 mil são identificados como tendo altas habilidades ou superdotação (AH/SD). Esse número representa apenas 0,20% do total de estudantes, muito aquém das estimativas da Organização Mundial da Saúde (OMS), que aponta uma incidência de cerca de 3% da população, e das projeções do Ministério da Educação (MEC), que variam entre 5% e 15%. Os dados, referentes a um levantamento de 2025 do Instituto Nacional de Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP), foram apresentados durante um seminário promovido pela Comissão de Educação e Cultura da Assembleia Legislativa, realizado nesta segunda-feira (15), na UniSociesc, em Joinville.

O evento contou com a presença de especialistas que discutiram estratégias de identificação, atendimento educacional e garantia de direitos para esse segmento da população. O deputado Fernando Krelling (MDB), coordenador da Frente Parlamentar de Altas Habilidades ou Superdotação e proponente do seminário, destacou que o objetivo é disseminar informações sobre AH/SD na sociedade e capacitar profissionais da educação. “Nosso seminário tem esse propósito: fortalecer a educação básica, capacitar os profissionais, acolher as famílias e avançar na educação inclusiva. Não apenas no processo de ensino e aprendizagem, mas também na empatia, no acolhimento e na compreensão da causa”, afirmou.

Krelling também mencionou a expectativa de que o debate gere novas políticas públicas para essa parcela da comunidade escolar. “Embora seja um tema antigo, ainda é relativamente novo para o poder público, pois são as famílias que vivenciam essa realidade diariamente. A partir de agora, queremos que Santa Catarina amplie seu olhar sobre essa questão, que exige sensibilidade e empatia. É fundamental nos colocarmos no lugar do outro e desenvolvermos ações que valorizem e potencializem talentos que não podem ser desperdiçados”, disse o deputado.

De acordo com o Ministério da Educação, estudantes com altas habilidades ou superdotação são aqueles que demonstram potencial elevado em áreas como intelectual, acadêmica, artística, liderança ou psicomotora, aliado a criatividade e forte envolvimento em atividades de interesse. A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) reconhece esse grupo como público da educação especial, assegurando atendimento educacional especializado, preferencialmente na rede regular de ensino.

Ludimile Almeida, presidente da Associação Catarinense para Altas Habilidades ou Superdotação, enfatizou a necessidade de o Estado avançar na identificação e no atendimento específico a esses alunos. Ela afirmou que as deficiências no ambiente escolar motivaram a criação da associação, que hoje atende 400 famílias em todo o estado. “Começamos a nos unir diante da dor de ver crianças e jovens sofrendo por frequentarem escolas que não oferecem um ambiente adequado. Buscamos o poder público para contribuir com a melhoria da legislação, tanto no Legislativo quanto no Executivo. Também trabalhamos com as escolas para que desenvolvam ações em parceria com as famílias, promovendo a integração dos estudantes. É importante que essas crianças e jovens saibam que não estão sozinhos, que existem outros com características semelhantes e que podem compartilhar experiências”, destacou.

A advogada Vanessa Mello, especializada em direitos dos superdotados, ministrou uma palestra sobre o tema. Ela explicou que a legislação federal prevê uma série de medidas a serem adotadas pelo poder público, como o direito à educação personalizada, com enriquecimento curricular e avanço nos conteúdos, conforme a necessidade de cada aluno. No entanto, um falso conceito de que esses estudantes não precisam de apoio especial tem impedido a implementação dessas normas. “Há muitas situações críticas em todo o Brasil, devido a mitos e preconceitos. Existe a percepção equivocada de que, por serem superdotados, não necessitam de acompanhamento. Na verdade, ocorre o contrário: por apresentarem grande intensidade intelectual, emocional e em outras dimensões, precisam de suporte adequado para desenvolver plenamente seu potencial”, afirmou.

A professora e escritora Paula Moreira, especializada em superdotação, abordou o atendimento escolar de alunos com AH/SD. Ela compartilhou sua experiência como coordenadora de um núcleo com 32 crianças superdotadas em uma escola no Piauí. Segundo ela, o primeiro passo é identificar esses alunos e reduzir a sensação de isolamento, promovendo a interação com outros estudantes com características semelhantes. O desafio seguinte é avaliar individualmente as necessidades de cada um para definir as estratégias de atendimento mais adequadas. “Cada estudante com altas habilidades ou superdotação tem características e necessidades próprias. Alguns precisam de ensino mais personalizado, outros de adaptações específicas. A superdotação não é homogênea”, concluiu.

Fonte: Assembleia SC

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