A Corregedoria da Polícia Militar de São Paulo concluiu o inquérito sobre a prestação de serviços particulares de segurança por policiais militares a executivos da empresa de transporte urbano Transwolff, suspeitos de envolvimento com a facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC). A Transwolff e a UPBus foram alvo da Operação Fim da Linha, iniciada em abril de 2024 pelo Ministério Público de São Paulo, sob suspeita de lavagem de ativos financeiros e apoio ao crime organizado.
Segundo a apuração, os militares faziam parte de um esquema de proteção armada que beneficiava dois diretores da Transwolff: Luiz Carlos Efigênio Pacheco, conhecido como Pandora, e Cícero de Oliveira, apelidado de Té. O Ministério Público classificou ambos como responsáveis pela lavagem de dinheiro em nome da facção criminosa. Com a conclusão do inquérito, foram indiciados o capitão Alexandre Paulino Vieira, os sargentos Nereu Aparecido Alves e Alexandre Aleixo Romano Cezário, e o tenente-coronel José Henrique Martins Flores. O órgão também solicitou a manutenção das prisões preventivas dos envolvidos.
A defesa do capitão Alexandre reiterou sua inocência, descrevendo-o como “uma pessoa íntegra e profissional exemplar, não tendo relação alguma com qualquer prática criminosa”. Acrescentou que “as investigações têm se estendido por tempo exagerado, sem fundamentação legal, mantendo a custódia por tempo indeterminado”. Não foi possível localizar a defesa dos demais indiciados.
Relações com Milton Leite
A investigação revelou indícios de vínculos financeiros entre o ex-presidente da Câmara Municipal, Milton Leite (União Brasil), e a Transwolff. De acordo com o relatório, gravações telefônicas indicam que o sargento Nereu explicou a Té um atraso na escolta devido à sua participação na inauguração de uma creche municipal ao lado do vereador, a quem se referia como “chefe”. O fato teria ocorrido em 18 de agosto de 2023.
O documento final aponta a existência de um grupo de oficiais da PM que gerenciava os serviços e dissimulava os rendimentos obtidos. O capitão Alexandre teria sido o encarregado de organizar as escalas, determinar os pagamentos e recrutar outros agentes, utilizando uma empresa de consultoria registrada em nome de sua mãe para emitir notas fiscais falsas para a Transwolff. O capitão atuava na assessoria militar da Câmara, foi ajudante de ordens de Milton Leite e mantinha contato com o vereador desde 2014.
Além disso, o tenente-coronel José Henrique também foi indiciado por empregar empresas de fachada, abertas em nome de laranjas, para fornecer serviços contínuos de portaria e escolta armada à transportadora. A Corregedoria apontou que a construtora Neumax, da qual Milton Leite é sócio, funcionava como o ponto de ligação financeira do esquema, recebendo R$ 812 mil mensais da Transwolff pelo aluguel de imóveis na Zona Sul. Esse valor é quase três vezes superior à média do mercado local.
Em nota, Milton Leite declarou que sua relação com o capitão Alexandre Paulino Vieira foi “estritamente profissional”. Segundo ele, o capitão trabalhava na Assessoria Militar da Câmara Municipal desde 2014, “muito antes de eu ser eleito presidente em 2017. Ele atuou com cinco presidentes: José Américo, Antonio Donato, Milton Leite, Eduardo Tuma e Ricardo Teixeira”. Em depoimento, o capitão Alexandre confirmou que mantinha uma relação exclusivamente funcional e meramente profissional, uma vez que atuava como responsável pela segurança institucional da Presidência do Legislativo. Disse ainda que jamais prestou qualquer serviço particular para Milton Leite e que nunca recebeu dele qualquer determinação para atuar em qualquer empresa, pública ou particular, muito menos do setor de transporte público da Cidade de São Paulo.
Sobre Nereu, Milton Leite afirmou que ele nunca trabalhou em sua escolta. “No depoimento que prestou, o sargento Nereu Aparecido Alves negou expressamente que tivesse chamado Milton Leite de ‘chefe’, versão absolutamente fantasiosa. Nereu disse que a mensagem de WhatsApp com a expressão ‘chefe Milton’ não foi escrita por ele (Nereu), e sim pelo capitão Alexandre, uma vez que este tratava da segurança da Presidência da Câmara. No mesmo depoimento, o sargento Nereu também afirmou que não esteve no evento de inauguração do CEI Nathalia Pereira da Silva acontecido no mês de agosto de 2023, notícia essa que foi equivocadamente veiculada por esse veículo de imprensa”. A respeito da relação comercial mencionada, o ex-presidente da Câmara disse que “o contrato de aluguel é inferior ao preço de mercado, jamais superior. O contrato incluiu não apenas a locação, mas também obras de reparo que foram feitas no imóvel alugado. Desconheço qualquer avaliação de imóvel feita pela Corregedoria da PM que permita questionar o valor”.
Fonte: O GLOBO







