FUTEBOLGuardiola deixa o City após uma década de reinvenção tática e legado duradouro

Após dez anos no comando do Manchester City, Pep Guardiola se despede do clube inglês. O futebol perde um gênio da raça, um animal político consciente de sua influência e um transformador do esporte. O debate sobre seu impacto está aberto, mas é difícil negar que tudo que aconteceu na bola depois da primeira década deste século passou por ele — seja como ação, reação, criação ou antídoto.

O Barcelona fantástico de Guardiola obrigou treinadores do mundo inteiro a queimar neurônios para tentar não ficar numa roda de bobo: ou copiavam o modelo ou inventavam um antídoto. Quando conseguiam se aproximar, ele já estava no próximo nível, rasgando tudo que inventara em sua capacidade surreal de reinvenção. Sempre haverá quem aponte que algo já se fazia antes — como o professor Luxemburgo, que até hoje afirma ter feito no Bragantino dos anos 80 — mas foi com Guardiola que muitas coisas ganharam forma definitiva.

Foi ele quem aposentou goleiros que não sabiam jogar com os pés, hoje quase peças de museu. Na época, a ideia parecia insanidade; não era, era futebol em busca da melhor forma. Agora parece óbvio que o goleiro é o primeiro construtor do jogo, mas antes de Pep isso renderia camisa de força. Laterais invertidos, atacantes por dentro — sim, havia registros anteriores, mas depois dele tudo parecia apenas um esboço.

O caso do Falso Nove é emblemático. Em 2 de maio de 2009, Guardiola imortalizou Messi na função durante um Barcelona x Real Madrid. A história, contada em detalhes em ‘Guardiola Confidencial’, de Martí Perarnau, expõe a obsessão e a insana busca pela perfeição — marca registrada dos gênios. Pep ligou para Messi às dez da noite de sábado, véspera do clássico, e o fez ir ao centro de treinamento. Alucinado, tinha visto um buraco na defesa do Real Madrid. A invenção: Messi começava pelos lados e, aos 10 minutos, recebia o sinal para ocupar o posto de Falso Nove. Resultado: 6 a 2, placar que ainda ecoa em Barcelona.

Guardiola também obrigou treinadores adversários a criar antídotos, o que tornou o jogo ainda mais frenético. Para conter o abuso dos goleiros na construção, forjou-se a pressão alta que tornou o futebol vertiginoso. Klopp foi a maior expressão dessa fagocitose campal, mas o início de tudo estava na necessidade de inventar algo para bater Guardiola. O jogo se transformou em campos de salão de 30 metros com transições rápidas — tudo para tentar superá-lo.

Um perfil no ‘The Athletic’ recentemente revelou histórias além dos livros de Perarnau, mostrando o valor do bom jornalismo, com tempo e investimento. O texto é um colírio na era dos cliques apressados. Mas a história favorita deste colunista não está lá. Entre o Barcelona e o Bayern, Guardiola tirou um período sabático em Nova York, no Upper West Side, no edifício The Ardsley — um templo art déco com vista para o Central Park, vizinho ao Dakota, imortalizado por John Lennon. Um repórter brasileiro descobriu o retiro e montou campana por dias. Quando Pep surgiu, o jornalista apelou: ‘Pep, sou brasileiro, repórter, Brasil…’ Pep parou, olhou e respondeu: ‘F… que você é brasileiro.’ E subiu. Genial até na falta de educação.

Fonte: Lance

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