O Atlas da Violência 2024, divulgado nesta terça-feira pelo Ipea e FBSP, aponta que o Brasil registrou 42.590 homicídios no ano passado, uma redução de 7,4% em relação a 2023. A taxa nacional ficou em 20,1 mortes por 100 mil habitantes, o menor índice desde 2014.
Apesar da melhora geral, o estudo destaca dois problemas: a subnotificação de assassinatos e a concentração de mortes violentas em cidades das regiões Norte e Nordeste. As maiores taxas estão no Amapá, Bahia, Pernambuco, Alagoas e Ceará. Entre os 20 municípios mais violentos com mais de 100 mil habitantes, 17 estão no Nordeste, enquanto as 20 cidades com menos homicídios ficam no Sul e Sudeste.
O coordenador do levantamento, Daniel Cerqueira, explica que a interiorização das facções criminosas, com grupos locais focados no controle territorial, agrava a violência nessas regiões. “São jovens que querem se firmar pela violência”, afirma. A queda nacional, por outro lado, é atribuída a políticas de segurança mais eficazes, envelhecimento populacional e redução dos conflitos entre PCC e Comando Vermelho, que atingiram o auge entre 2016 e 2017.
Cerqueira ressalta que a sensação de insegurança aumentou, mesmo com menos homicídios. Isso se deve à maior visibilidade da criminalidade no debate público e à mudança no perfil dos crimes: além do medo de roubo, cresce o temor de fraudes, como estelionatos virtuais. Outro fator é a governança criminal territorial, antes restrita ao Rio de Janeiro, que agora se expande pelo país.
O Atlas também alerta para os homicídios ocultos, mortes registradas como acidente, suicídio ou causa indeterminada (MVCIs). Entre 2023 e 2024, esses casos subiram 88,6%, de 3.755 para 7.083, elevando a taxa de 1,8 para 3,3 por 100 mil habitantes. De 2014 a 2024, foram 55.212 homicídios ocultos. Para Cerqueira, a piora na qualidade dos dados cria um “ponto cego estatístico”. Ele cita a falta de compartilhamento de informações entre polícia e saúde, além de dificuldades na identificação das causas pelas autoridades.
A violência contra mulheres caiu 27,7% na última década, mas a redução se deve a mortes fora de casa. Dentro do ambiente doméstico, a taxa variou de 1,25 para 1,18 por 100 mil habitantes, uma “estabilidade inaceitável”, segundo Cerqueira, que aponta raízes culturais no patriarcado. A letalidade contra negros também preocupa: em 2024, 32.820 negros foram assassinados (89,9% do total), com taxa 170,3% maior que a de não negros. Para mulheres negras, a taxa é 66,7% superior.
O levantamento critica a falta de registros sistemáticos de violência contra a população LGBTQ+, gerando invisibilidade. As notificações de agressões contra homossexuais e bissexuais cresceram 5,5%, totalizando 10.250 casos, enquanto as contra transexuais e travestis subiram 2,5%, para 5.575 ocorrências.
Fonte: O GLOBO







