SEGURANÇANotificações de violência sexual contra crianças e jovens sobem mais de 300% em dez anos

Dados divulgados nesta terça-feira pelo Atlas da Violência 2026 revelam um aumento expressivo nas notificações de violência sexual contra crianças e adolescentes no Brasil. O levantamento, elaborado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, utiliza informações do Ministério da Saúde referentes a 2024 e aponta crescimento em todas as faixas etárias de 0 a 19 anos.

Na primeira infância, que compreende crianças de 0 a 4 anos, os registros saltaram de 1.671 em 2014 para 7.845 em 2024, um aumento de mais de quatro vezes. Já na faixa de 5 a 14 anos, o crescimento foi de 341%, passando de 6.594 para 29.135 notificações. Segundo o Atlas, este grupo etário é o mais vulnerável. Entre jovens de 15 a 19 anos, as ocorrências subiram de 1.632 para 6.869 no mesmo período.

Daniel Cerqueira, pesquisador do Ipea e um dos autores do estudo, atribui parte do aumento à redução das subnotificações. Ele explica que a conscientização da população e o treinamento de profissionais de saúde têm contribuído para que mais casos sejam registrados. “Quando uma criança chega com sinais de violência sexual, o servidor é obrigado a fazer a notificação, independentemente de a família ter apresentado queixa”, afirma.

O levantamento também mostra que a violência sexual atinge desproporcionalmente as meninas, que representam 86,9% das vítimas, contra 13,1% dos meninos. Para os pesquisadores, o fenômeno está ligado a desigualdades de poder, controle sobre o corpo feminino e normas de gênero.

O Atlas da Violência destaca ainda a influência do movimento “Red Pill” em comunidades digitais, que dissemina visões que naturalizam a dominação masculina e deslegitimam o consentimento feminino. O estudo ressalta que, embora esses discursos não expliquem isoladamente os números, eles podem “atuar como fatores de reforço cultural, especialmente entre adolescentes, contribuindo para a normalização de comportamentos coercitivos ou abusivos”.

Fonte: O GLOBO

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